O que é dor crônica?
A dor crônica é a dor que persiste ou volta por mais de três meses. Essa é a definição adotada pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) e pela Organização Mundial da Saúde na CID-11, a classificação internacional de doenças. A partir daí, a dor passa a pedir tratamento e cuidado próprios.
A classificação foi criada por um grupo de trabalho da IASP em parceria com a OMS e publicada por Treede e colaboradores na revista Pain, em 2019. Ela separa a dor crônica em dois grandes grupos:
- Dor crônica primária: a dor é a própria doença. Entram aqui, por exemplo, a fibromialgia e a dor lombar inespecífica, aquela sem uma causa específica identificada.
- Dor crônica secundária: a dor começa como sintoma de outra doença. A CID-11 reúne seis grupos: dor ligada ao câncer, dor neuropática, dor visceral, dor pós-traumática ou pós-cirúrgica, dor de cabeça ou dor na face secundária e dor musculoesquelética secundária.
A mesma publicação lembra que a dor crônica atrapalha o funcionamento do dia a dia e costuma vir acompanhada de sofrimento emocional. Por isso, o prazo de três meses marca o momento de olhar a dor como um problema de saúde em si, e não só como o sintoma de uma lesão que ainda vai cicatrizar.
Quais são os tipos de dor?
A IASP descreve três tipos de dor pelo mecanismo que a produz: nociceptiva, neuropática e nociplástica. Saber qual deles predomina ajuda a escolher o tratamento, porque cada mecanismo responde a recursos diferentes. Uma mesma pessoa pode ter mais de um tipo ao mesmo tempo, e o plano precisa enxergar essa mistura.
- Nociceptiva: vem de dano real ou de ameaça de dano a tecidos como músculo, tendão, osso ou articulação, com o sistema nervoso funcionando normalmente. É a dor típica de uma inflamação ou de uma lesão nessas estruturas.
- Neuropática: é causada por lesão ou doença do próprio sistema nervoso que conduz as sensações. A classificação da IASP para a CID-11 (Scholz e colaboradores, 2019) cita como exemplos a polineuropatia dolorosa, como a do diabetes, a neuralgia pós-herpética e a radiculopatia dolorosa, quando uma raiz nervosa comprometida na coluna irradia dor para o braço ou a perna.
- Nociplástica: surge de uma alteração no modo como o sistema nervoso processa a dor, sem sinal claro de lesão nos tecidos ou nos nervos que a explique. Acontece, por exemplo, na fibromialgia e na dor de cabeça do tipo tensional. Cansaço, sono ruim, dificuldade de memória e alteração do humor costumam vir junto.
Essa diferença muda a conduta. Uma revisão publicada na revista The Lancet em 2021 (Fitzcharles e colaboradores) aponta que a dor nociplástica responde menos a tratamentos dirigidos ao local da dor, como anti-inflamatórios, opioides, cirurgia ou infiltrações. A mesma revisão descreve quadros mistos, como pode acontecer na dor lombar crônica, em que a dor nociplástica se soma à nociceptiva ou à neuropática.
Quais condições causam dor crônica?
A dor crônica pode ser a própria doença, como na fibromialgia, ou ser consequência de outra condição que se mantém por meses, como artrose, hérnia de disco ou estenose da coluna. A tabela abaixo reúne as condições abordadas neste site e leva ao guia completo de cada uma.
| Condição | O que é | Página no site |
|---|---|---|
| Fibromialgia | Dor crônica generalizada, que a CID-11 inclui entre as dores crônicas primárias. O guia explica por que ela exige abordagem multidisciplinar e como um plano estruturado ajuda nas crises, no sono e na rotina. | Fibromialgia: tratamento multidisciplinar |
| Dor crônica nas costas | Dor lombar que dura mais de três meses e raramente melhora só com remédio e repouso. O guia apresenta a abordagem biopsicossocial, que olha para a causa e para o risco de recaída. | Dor crônica nas costas: tratamento sem cirurgia |
| Estenose lombar | Estreitamento do canal da coluna na parte baixa das costas, que pode comprimir os nervos. Quais tratamentos conservadores funcionam, quando a cirurgia é realmente necessária e como a avaliação fisiátrica define o caminho. | Estenose lombar: tratamento sem cirurgia |
| Hérnia de disco e dor ciática | Parte do disco entre as vértebras escapa e pode irritar o nervo, com dor que desce pela perna. Nem toda hérnia precisa de cirurgia: o guia explica a reabsorção, o que ajuda a recuperação e quando operar é indicado. | Hérnia de disco: dor ciática sem cirurgia |
| Artrose no joelho | Adoecimento da articulação inteira, não só desgaste da cartilagem. Viscossuplementação, exercício orientado e infiltrações como opções além da prótese. | Artrose no joelho: tratamento além da prótese |
| Dor no idoso | Dor persistente não é etapa obrigatória do envelhecimento. Sinais que a família confunde com a idade, prevenção de quedas e reabilitação em casa ou em instituição de longa permanência (ILPI). | Dor no idoso não é coisa da idade |
| Acidente de trabalho | Dor e limitação depois de um acidente ou lesão no trabalho. O papel da fisiatria no retorno ao trabalho e o custo de afastar sem reabilitar. | Acidente de trabalho: o custo de não reabilitar |
| Qual especialista procurar | A diferença entre fisiatra e ortopedista e quando procurar cada um em dor crônica e reabilitação. | Fisiatra ou ortopedista: qual a diferença? |
Qual médico procurar para dor crônica?
Para dor que já passou de três meses, vale procurar um médico que avalie o quadro inteiro, não só o exame de imagem. O médico fisiatra é especialista em Medicina Física e Reabilitação e foca na função: o que a dor impede você de fazer e como recuperar isso, priorizando o tratamento sem cirurgia sempre que possível.
Esse olhar amplo segue o que recomenda a diretriz britânica NICE NG193, de 2021: uma avaliação centrada na pessoa, que identifique os fatores que contribuem para a dor e como ela afeta a vida de quem sente. Na consulta, entram o histórico, os exames, o sono, o humor, o trabalho e aquilo que você deixou de fazer por causa da dor.
Outras especialidades entram quando o caso pede. O ortopedista avalia fraturas e indicações de cirurgia, o reumatologista cuida de doenças inflamatórias das articulações e o neurologista, de doenças do sistema nervoso. Na dúvida sobre qual porta procurar, o guia fisiatra ou ortopedista compara as duas especialidades lado a lado.
Como funciona o tratamento multimodal?
O tratamento multimodal combina várias frentes ao mesmo tempo, em vez de apostar num único remédio ou procedimento. A razão está na própria definição de dor da IASP: a dor sofre influência de fatores biológicos, psicológicos e sociais, e cada um deles pede atenção dentro do plano.
- Exercício orientado: a NICE NG193 recomenda programa de exercício supervisionado para a dor crônica primária e incentiva a pessoa a se manter ativa a longo prazo. A dose é ajustada ao seu momento, sem forçar além do que o corpo tolera.
- Terapia psicológica: a mesma diretriz indica considerar a terapia cognitivo-comportamental ou a terapia de aceitação e compromisso, feitas por profissional com formação para isso. Não quer dizer que a dor seja "da cabeça": é uma ferramenta para lidar com ela.
- Medicação quando indicada: escolhida conforme o tipo de dor que predomina e revista a cada retorno. Para a dor crônica primária, a NICE cita alguns antidepressivos como opção, mesmo sem diagnóstico de depressão, porque podem ajudar na qualidade de vida, na dor, no sono e no sofrimento emocional.
- Procedimentos em casos selecionados: bloqueios e infiltrações guiados entram quando há um alvo definido, como uma articulação ou uma raiz nervosa, sempre como parte do plano e não no lugar dele.
- Sono, rotina e educação sobre a dor: entender como a dor funciona, cuidar do sono e retomar atividades aos poucos fazem parte do tratamento, não são detalhe.
Na prática, o plano costuma reunir médico, fisioterapeuta e psicólogo, com metas de função combinadas com você: caminhar uma certa distância, dormir melhor, voltar a uma tarefa do trabalho. O acompanhamento segue por meses, com ajustes a cada retorno. Cada guia da tabela acima mostra como isso se aplica à sua condição.
Quando a dor pede atendimento imediato?
Dor crônica costuma pedir consulta agendada, não pronto-socorro. Mas alguns sinais mudam isso e pedem atendimento médico imediato porque podem indicar lesão de nervo ou outra doença que precisa ser investigada logo. Os principais estão na lista abaixo, baseada no Manual MSD para dor nas costas, e valem também para quem já convive com dor há meses.
- Perda do controle da urina ou das fezes, ou dificuldade para esvaziar a bexiga.
- Dormência ou fraqueza em uma ou nas duas pernas.
- Febre junto com a dor.
- Perda de peso sem explicação ou histórico de câncer.
- Dor intensa durante a noite.
- Dor no peito, dor forte na barriga ou sensação de pulsação na parte alta do abdome.
- Uso de remédios que baixam a imunidade, cirurgia recente ou ferida aberta, que aumentam o risco de infecção.
Segundo o Manual MSD, febre e sinais de lesão de nervo pedem avaliação médica imediata, e a maioria dos outros sinais de alerta pede consulta no dia seguinte. Dormência, fraqueza nas pernas e perda do controle da urina ou das fezes podem indicar compressão de nervos ou da medula: nesses casos, procure um pronto-socorro. Fora dessas situações, dor que já dura meses merece uma avaliação com calma, sem esperar piorar.
Referências
- Treede RD, Rief W, Barke A, et al. Chronic pain as a symptom or a disease: the IASP Classification of Chronic Pain for the International Classification of Diseases (ICD-11). Pain. 2019;160(1):19–27. doi:10.1097/j.pain.0000000000001384
- International Association for the Study of Pain (IASP). Terminology: pain, nociceptive pain, neuropathic pain, nociplastic pain. iasp-pain.org/resources/terminology
- Scholz J, Finnerup NB, Attal N, et al. The IASP classification of chronic pain for ICD-11: chronic neuropathic pain. Pain. 2019;160(1):53–59. doi:10.1097/j.pain.0000000000001365
- Fitzcharles MA, Cohen SP, Clauw DJ, et al. Nociplastic pain: towards an understanding of prevalent pain conditions. Lancet. 2021;397(10289):2098–2110. doi:10.1016/S0140-6736(21)00392-5
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Chronic pain (primary and secondary) in over 16s: assessment of all chronic pain and management of chronic primary pain. NG193, 2021. nice.org.uk/guidance/ng193
- Manual MSD Versão Saúde para a Família. Dor lombar: sinais de alerta e quando consultar um médico. msdmanuals.com